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Inventário depois do luto: quando e como dar o primeiro passo

Foto do escritor: Camila Trindade
Camila Trindade
há 23 horas
3 min de leitura
Chaves de casa e cartas antigas em uma caixa de madeira, representando a herança e o inventário dos bens de família.


Quando uma família me procura para falar de inventário, a dor que eu mais vejo é a culpa. Culpa de falar da casa, do carro e da conta no banco de alguém que acabou de partir. Como se tocar nesse assunto fosse prova de interesse.


Essa sensação aparece em gestos pequenos. A filha encontra a escritura do apartamento na gaveta e fecha de novo. O irmão mais velho sabe que alguém precisa começar a conversa, mas não quer ser essa pessoa. A mãe, viúva, prefere esperar que os filhos puxem o assunto.


Por que tantas famílias adiam o inventário?


Porque ninguém quer parecer o filho que só pensa em dinheiro. O luto pede tempo e respeito, e falar de partilha logo depois de uma despedida parece atropelar tudo isso.

Esse sentimento é legítimo e mostra cuidado com quem partiu. O problema é que cada um espera que o outro tome a iniciativa, e o assunto fica cada vez mais difícil de puxar.


Com o tempo, o silêncio vira hábito. O assunto passa a ser evitado nos encontros de família e, muitas vezes, só volta à mesa quando surge uma necessidade concreta, como vender a casa ou resolver uma conta que ainda está no nome de quem partiu.


O que o inventário faz, na prática?


O inventário é o caminho que leva o patrimônio de quem faleceu até as pessoas que têm direito a ele. Em termos simples, nele, a família reúne os bens, as dívidas e os herdeiros, e deixa registrado como tudo será dividido. Essa divisão é a partilha.


Enquanto o inventário não é feito, os bens continuam no nome de quem partiu. A casa não pode ser vendida nem transferida com segurança, e o dinheiro da conta, em geral, não pode ser movimentado.


Por isso, eu costumo dizer às famílias que o inventário é uma forma de cuidar do que a pessoa construiu. É ele que faz a casa e as economias de uma vida chegarem a quem ela amava, em vez de ficarem travadas no nome dela.


O inventário pode ser feito em cartório?


Sim, quando a família está de acordo.


Esse é o inventário extrajudicial, feito em cartório, com o acompanhamento de um advogado e sem processo na Justiça. Ao final, o cartório faz uma escritura pública, que é o documento usado para passar os bens para o nome dos herdeiros no registro de imóveis, nos bancos e nos demais órgãos onde eles estão registrados.


Até pouco tempo, esse caminho não era possível quando havia um herdeiro menor de idade ou quando a pessoa tinha deixado testamento. Desde 2024, as regras mudaram e, em algumas dessas situações, o cartório também passou a ser uma opção, desde que cumpridas algumas condições.


Por isso, a escolha entre o cartório e a Justiça depende da análise de cada família.


O que acontece quando o inventário fica para depois?


A lei prevê que o inventário seja aberto em até dois meses a partir do falecimento.

Esse prazo assusta muitas famílias, mas ele existe para que o patrimônio não fique parado indefinidamente, e não para punir quem está de luto.


Na prática, o atraso pode trazer consequências. Em alguns estados, o imposto pago para receber a herança, conhecido como ITCMD, fica mais caro com multa quando o inventário não é aberto no prazo. Com o tempo, documentos se perdem, fica mais difícil reunir informações sobre os bens e, se outro herdeiro também falecer, a família passa a ter mais de um inventário para resolver.


Isso não pede pressa, e a família não precisa resolver tudo sozinha.


Quando procurar orientação?


O melhor momento é quando a família já consegue conversar sobre o assunto, mesmo que ainda com dor. Não é preciso ter todos os documentos em mãos nem todas as decisões tomadas. Uma primeira conversa serve para entender o que existe, quem são os herdeiros e qual caminho faz sentido para aquela família.


Na minha prática, eu percebo que esse primeiro passo alivia muito. Quando alguém de fora organiza as informações e explica o caminho, a conversa entre os familiares deixa de parecer uma disputa e passa a ser o que ela é: uma forma de honrar o que a pessoa deixou.


Inventário também é cuidado


A culpa de falar de bens depois de uma perda é compreensível. Mas ela não precisa decidir sozinha o que vai acontecer com tudo o que a pessoa construiu.


Quando a família entende que o inventário é uma forma de cuidado, ela para de carregar uma culpa que nunca foi dela. E consegue dar ao patrimônio o destino que quem partiu gostaria: chegar a quem ela amava.


Se a sua família está vivendo esse momento e ficou com alguma dúvida sobre o tema, me manda uma mensagem. Eu explico como funciona o inventário feito em cartório.





camilatrindadeadv@gmail.com

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